quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

O meu país

Uma pessoa anônima

Pode ser anônima uma pessoa?

Se permitiu censurar, ironizar

A minha esperança de que um presidente eleito na Argentina

Fizesse algo de bom pelo meu povo e pelo meu pais.

Nunca deixarei de ter esta esperança

De que um presidente, uma presidenta

Façam o que o meu povo e o meu país precisam.

A distância não me faz enxergar mal

Talvez agigante o tamanho da minha esperança

Mas não deixarei de pensar,

Não deixarei de esperar

Que quem assuma a presidência da Argentina

Em qualquer tempo que seja

Aja no sentido maior da vida

A justiça e a paz.

Anônimo, anônima

Dê a cara

Eu dou a cara

Não tenho medo de dizer quem sou

Não tenho vergonha de ser quem sou

Posso errar ao dar um voto de esperança

Mas desesperançar é algo que nunca vou me permitir.

A distância não me faz enxergar mal, não

Você pode estar no chão do meu pais

E estar com a cabeça sabe Deus aonde

Eu estou onde estou, que é o meu país.

Aprendi isto no exílio

Não há exílio mais doído do que o exílio de si

O não ser quem se é

O não ter amor nem amar.

Isto deve ser o inferno.

Não há ideologia que possa encobrir a pobreza moral

A miséria interior que se esconde no anonimato.

 

 

 

 

Estou com vocês, rede querida


Família

Comunidade

Nem poderia ser de outra forma

Fiz-me nesta trama

Aqui me refaço, desfaço, abraço

Construo um chão firme por onde ando

O mundo do cara a cara

É o meu mundo, sempre foi

Estas costuras de tempo em que me encontro

Reencontro, desencontro

Alinham a minha respiração e o meu pulsar

Com a essência da vida

O amor está em volta

Vejo esses corações por onde ando

Nas copas das árvores

E neste acalanto

Cada pranto hoje é uma canção

Não sei se verei um mundo mais justo

Como sempre sonhei

(É o sonho do mundo, a justiça)

Mas uma coisa é certa

Pela porta aberta que vejo à minha frente

A cada instante

Essa luz que me envolve e que cobre os céus

Vou catando as letras e as palavras

Os sentimentos e os atos

O que me traz cada vez mais

Para isto que está aqui.

Aqui não temo

Nada há a temer.

 

 

 

domingo, 19 de dezembro de 2021

Escribo para hacerme presente

Para ser yo mismo

Todo lo que amo está aquí cuando escribo

No hay ausencias

No hay tristezas

No falta nada

Todo es como debe ser.

Entonces escribo cualquier cosa

Las acacias que vi esta mañana al volver de la playa

El libro que me espera

Los recuerdos que me visitan

Gente que conocí y que quise

Jornadas movilizadoras

Y ahora ya la tarde

El sol que se va yendo

La sucesión de los días

Como páginas de un libro

Una esperanza de días mejores

El amor que me habita

¿Qué más diría?

La luna de anoche y anteanoche

Los viajes posibles y probables

El canto del pájaro que alegra

La secuencia interminable de instantes

Respiraciones

Pasos

Todo se mueve en dirección a un lugar acogedor

Hacia allá va la vida.

No hay perfección

Hay intentos

Acercarse

Estar casi allí

Saberse en marcha.

Nada está pendiente

Nada es como debería ser

Es como es

No como pensamos que debería ser

No existe el debería ser

Solamente el ser

Y el ser es paz

Conflictiva paz

Moviente.

No me voy a cansar de vivir

Voy a descansar de repeticiones

De vivir no.

Cuando viene el amor

Todo se organiza

Todo es como es

Todo está en su lugar.

El amor desocupa

Libera

Abre espacio. 

 

 

 

terça-feira, 9 de novembro de 2021

De frente

Tenho estado a me recuperar

E ainda estou

De um tempo de rodas vivas

Todo dia, toda hora

Rodo agora num tempo interno

Existe também a frente interna

Há muitas frentes

Frente familiar

Frente poética

Eticamente

Sociologicamente

Tanto tenho rodado e voltei para o meu lugar

De onde nunca tinha saído

Assim nesta roda que roda

Voltei à minha infância

O carrossel do parque

Onde meu pai nos levava

A piscina do clube

Onde mamãe nos levava

As mobilizações que me trouxeram para onde estou

Tudo isto para dizer

Que agora pertenço a uma retaguarda viva

Uma outra linha de frente

Uma frente comunitária

Onde reponho meu senso de viver

Simplesmente viver

Apenas isto.

(É uma sensação nova

Surpreendente, gente!)

domingo, 7 de novembro de 2021

¿Buenos o malos poemas?


Sé que algunos de mis poemas y escritos

No son algo así como una melodía

Talvez un canturreo

No sé si son buenos o malos poemas

Aquellos que son casi apenas un registro

Puede ser sólo una lluvia de palabras

Quien sabe en medio de ellas refulge

Un sol, una gota de agua, un arco-íris

Mejor que salga el agua

El sentimiento que salga a la luz

Otros de mis poemas me sorprenden

Son como obras de arte

Nacidas sin que yo supiera

Hay de todo

Sigo pariendo

Sigo naciendo

Malos o buenos poemas y escritos

Sigo adelante

Sé adonde voy y porqué.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Escrever como forma de ser

Muitos dos meus textos têm encontrado ecos positivos nas pessoas

Isto me alegra e anima.

Escrevendo vou pondo a minha vida a limpo.

Arejo o meu interior.

Desfaço mecanismos de auto-exigência que não me pertencem.

Volto a respirar.

Me permito descansar.

Relaxo.

Paro.

Deixo de querer forçar as coisas.

É certo que muitas vezes necessito me esforçar para fazer alguma tarefa.

Mas trato de me respeitar o tempo todo.

Sair de salvador da pátria, super-homem

Venho para a pessoa que sou

Um homem que a estas alturas da vida

Simplesmente se permite o direito de olhar para o caminho percorrido e dizer:

Acertando e errando aqui estou

Tenho certeza de que os meus acertos cobrem os meus erros

Todos os meus pecados me foram perdoados

Me perdôo continuamente

Me amo como quem descobre o amor sem saber o que seja o amor

A vida recomeça a cada dia

Toda hora

Agora mesmo está a recomeçar

E custa-me deixar a folha

Pois que é lendo e me lendo nas leituras que as pessoas e eu mesmo faço de mim

Que aquele que sou é mais e mais ele mesmo

Escrever como forma de ser.

 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Terapia Comunitária Intensiva

Neste já mais de ano e meio de confinamento

Proximidade da morte

Ficar em casa

Menos movimentos

O movimento foi o de ir para dentro.

Rodas de TCI de manhã, tarde e noite

Literalmente

Mergulho em profundidade

Intensidade.

Isto fiz porque senti com toda clareza

Que ou era isto, ou eu ia de encontro àquilo

Ou aquilo eternamente iria me atormentar

Deu certo.

Lembrarei para sempre destas jornadas

Rostos e palavras e gestos

Uma amorosidade irrestrita me acolheu

Voltei

Vocês salvaram uma vida

E se isto possa parecer algo dramático

Talvez seja, de fato.

Não sabemos nunca exatamente o que as coisas são

O que não posso deixar de dizer e digo já

Sem rodeios

É que agora necessito parar

Descer do carrossel

E voltar a andar a pé

Ou pelas nuvens

Por onde for.

Parar, parar, parar e parar.

A causa exige uma pausa.

Agora é apenas o viver

Chega de remexer

Voltar a olhar o que já vi até o cansaço

O avesso do avesso do avesso

Não é isto?

Ou será aquilo outro?

Afora refletir, é preciso ir

Seguir em frente

Ir e voltar, é certo

Mas ficar de preferência onde todo o tempo se reúne

Aqui e agora

Um aqui e agora robusto, crescido, sadio.

Preciso parar e paro.

Uma pausa

Isto para um artista

E toda pessoa é, se de fato está à procura de si mesma

Se não lhe basta a vida pré-fabricada e imposta

É um desafio

Uma vez que vivemos na intensidade

Mas a intensidade

Essa cidade que nos habita e habitamos

Também se recolhe.

Estes tempos de parar o tempo

Obrigatoriamente

Me fizeram olhar o tempo que passa como algo que não passa

A lua sobe pelo céu e não sei quando a irei ver outra vez

Ou se esta será a última vez

Espero que não

Mas o que eu sei da lua e das estrelas?

Muito pouco, a não ser que estão distantes e são belas.