domingo, 27 de janeiro de 2013
Vistas
Tinhas estado novamente em Praia Bela. Bela praia, verdadeiramente. A vista sempre mutante, do rio e do mar, refazendo a paisagem. As dunas. As pegadas das pessoas na areia. Os restaurantes, as palhoças. A vista das mulheres preciosas, andando de um lado para outro. As ondas do mar, desenhando a forma ímpar da água encrespada em movimento. A garçonete que serviu a mesa. O ensopado, o peixe, a cerveja. O céu azul com nuvens. Os morros cobertos de árvores, no fundo da paisagem. A vista dos coqueiros marcados contra o fundo da paisagem, como uma gravura. Te admira a característica de certas vistas de paisagens, sejam rurais ou urbanas. Hoje de manhã, indo e vindo da praia, os paralelepípedos no chão, te chamaram a atenção. Pareciam talhados na pedra. São pedras talhadas, mas pareciam talhadas no espaço, na tua vista, à tua frente. Na vista dos coqueiros na volta de Praia Bela, a mesma impressão: os coqueiros pareciam talhados no espaço, na tua vista.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Possibilidades
Aquela manhã, na sala de espera, vira várias pilhas de revistas. As poltronas. Os quadros. As plantas ornamentais. Pensara: não lembrarei mais disto. Mas lembrava. Folheara uma revista e lera algo sobre a leitura nos tempos digitais. Folheara várias revistas. Ivete Sangalo. A escrita. Leitura. Lembrara do dia de ontem. Eu posso ser. Eu posso ser eu mesmo. Eu posso estar aqui. Estar, ser, fazer. Várias possibilidades, inúmeras possibilidades para o ser humano. O Reino de Deus é isto. A culpa é uma forma de dominação, de exploração da pessoa humana. E se isto fosse tudo, pensou. Por que não pensar que isto é tudo? A minha esposa, a minha família, as redes de que participo. Estes trabalhos de formiga em direção a um mundo melhor que começa em cada um, em cada uma de nós. Eu posso estar aqui, pensava. Eu posso ser que eu sou. Aliás, eu somente posso ser quem eu sou. E eu apenas posso estar aqui. Vira a romãzinha no pé, perto da porta de entrada. O carro lá fora. A rua. O som dos carros passando, distante. Depois, a farmácia. A rosa branca. Estar, ser. Fazer. Possibilidades do ser humano.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Escrevo para
Quando o escrever incomoda? Quando o que escrevo incomoda? Não tenho tentado, ao escrever, atacar ninguém, nem agredir alguma ideologia ou modo de ser ou de pensar. Nem mesmo quando me refiro ao capitalismo como um sistema perverso ou negativo, o faço desde um ponto de vista da luta pela destruição deste sistema daninho.
Quando critico o capitalismo ou algum comportamento, não o faço com a finalidade de destruir alguma coisa. Não nego, no entanto, que sonho com ver um dia chegar em que não existam mais fronteiras, controles migratórios, exércitos, violência, guerra.
Mas o que quero dizer, o tom geral desta conversa, é que eu escrevo sempre com uma intenção construtiva. Mesmo quando tenho escrito algo em contra de certas formas de pensar ou de agir, ou de alguma instituição, não o faço com uma intenção destrutiva e, sim, por estar empenhado, pessoal e coletivamente, na construção de formas de ser, pensar, sentir e agir baseadas no amor, no mais profundo respeito pela vida.
Tudo isto é para dizer que estou tentando passar a limpo este meu oficio de escrever. De tanto escrever, em algum momento a pessoa chega a uma espécie de território indefinível, em que a realidade que escreve e a que vive, estão fundidas, são uma só. Este processo em que me encontro, este instante original, são algo de muito precioso.
É como uma reversão do tempo. É como se o seu passado e o seu presente, a sua vida toda, tivessem voltado a ser o que são, o que foram. Tempo unificado. É claro que isto não teria ocorrido, a não ser a través de um diálogo construtivo e criativo com pessoas que me foram lendo, e, que ao me lerem, foram me dando a oportunidade de que eu mesmo fosse me lendo de maneira nova.
Assim fui renascendo, fui voltando, como sigo voltando, a ser quem eu sou. Neste diálogo construtivo em que fui e continuo sendo cada vez mais o ser que sou, tiveram e tem um papel fundamental, algumas pessoas. Várias delas, muitas delas, terapeutas comunitários, ou pessoas ligadas a esta área de atuação.
Outras, alguns amigos e pessoas da família, que foram vendo que o que vinha, que o que estava vindo, era eu mesmo. Este que agora escreve estas coisas, e que era cada vez mais, outra coisa, não uma coisa adulterada, falseada, falsificada, e sim algo genuíno, algo novo, algo verdadeiro. Por isto, e já vou chegando ao fim destas linhas, digo que escrevo para me ter de volta. Escrevo para ser cada vez mais a pessoa que sou.
Devo agradecer e agradeço a todas essas pessoas que me foram ajudando a voltar. Algumas já não se encontram mais no plano físico da existência, mas estão comigo nesta caminhada. A todas e a todos, obrigado. Escrevo para ser, e escrevo para que, em eu sendo cada vez mais quem sou, outros e outras sejam cada vez mais, eles mesmos, elas mesmas.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Pulsando
Essa tarde, andara com uma alegria diferente no peito. Um espaço maior dentro de si. O sentimento alimentado. Conversara com cada um dos seus filhos e filhas. Essas vozes ecoavam dentro de si. Eram como sons musicais. Tons a tocar na sua alma, e a lhe alegrar. As caminhadas da manhã e da noite, o dia como um emaranhado de caminhos e decisões, indecisões, reflexões. Algo dentro de si se abrira, se expandira. Pegara um livro de Paulo Freire na universidade. Fora ao sindicato, receber um celular de presente, ganho por sorteio na confraternização de fim de ano. Olhara aqueles olhos da sua amada, como sois a sorrirem. Tecera mais alguns fios dessa trama que é a vida. Ou fora tecido por eles? Talvez um pouco de cada coisa. Andara pela avenida em frente à igreja de Nossa Senhora de Guadalupe. Agradecera, no meio da caminhada, pela vida. Uma emoção profunda o embargou. Quanta vida passada, e o presente, como uma ponta de uma pirâmide. A reunião de todos os caminhos. Lembrara da vista do mar à noite e pela manhã. Luzes de noite. Sol de manhã. Sol e lua. A vida, um eterno giro. No coração, tantos seres queridos. Escritor, constrói o mundo em que vive. A sua vida é um pulsar para a página e da página para a vida. Vida e página. Vida página. Paginando a vida. Moldamos o nosso existir. Construímos a toda hora o ser que somos, e, também, somos moldados por tudo que acontece ao redor e conosco mesmos. O cajueiro. As acácias. As flores lilases e vermelhas, amarelas, da calçada em frente e de todas as calçadas do bairro. O flamboyant. A escola. As ruas. Os carros. As pessoas. As árvores. Boa noite.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Ocaso
A veces no sabes bien qué hacer. Has andado, caminhado por las veredas del barrio. Has hecho algunos trámites y diligencias necesarios. Correo. Banco. Has conversado con un amigo al que admiras. Gente que no desiste, insiste. Insiste en la esperanza, en lo comunitario. Cómo es notable que haya personas de bastante edad, que no desisten de creer en la movilización social. Ayer leía una frase de Dom Helder Câmara, que decía que el secreto de la felicidad en la vejez, es tener una causa por la cual vivir. No sé si es textual la frase, pero el sentido lo es. Yo miraba el rostro de Dom Helder en la foto.
Recordaba otras personas de edad que no desistieron de creer, y de trabajar por sus sueños, sueños colectivos y personales, hasta el fin de sus días. Mi madre fue una de ellas. Gente que no se entregó a la vejez como si fuera un tiempo de abandono, de esperar la muerte llegar. Recuerdo a mis abuelitas Oliva y Mamina. Ninguna de las dos se entregó a esa especie de abandono. Siguieron de pie, encendidas, en su propia forma de vivir, hasta el fin. Tejiendo, leyendo, rememorando, cantando, cultivando la amistad, la fe, la oración. Quisiera morirme así. El día ya se ha hecho noche, y recuerdas las plantas que viste.
El aroma de los jazmines, de unas flores rojas que viste al caminar por la avenida. Las flores amarillas y naranja del jardín del frente. Las primaveras, o santa-ritas, o bougainville. Las flores blancas que perfuman por todas partes. Las acacias, que penden como farolitos japoneses. El día ha entrado en esa modorra nocturna, cuando las luces de la ciudad tejen hilos de luz en todas las direcciones. Tratas de cerrar el día, pero ¿quién es que puede cerrar un día? El día se cierra por sí mismo, si es que de hecho esto ocurre. Talvez el dia se vaya corriendo atrás de la noche, jugando a las escondidas.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Esta noite
Fora caminhar pela beira mar. Ver gente, a noite. Luzes, carros, pedestres. O mar lá atrás, fundido com o céu. As ondas, os barcos. Uma mulher caminhava na sua frente. Vira a beleza dela. O andar gingado. Fora adiante. As estátuas na pracinha em frente ao centro empresarial Tambaú. As ondas quebrando. A água na calçada. Mais gente, agora vindo desde Manaíra. A agência do Banco do Brasil. A casa do sertão, mais lá em cima. As lojinhas de artesanato. A feirinha. Tecidos. Bolsas. Roupa. O hotel tropical Tambaú.
Mais barracas. A igreja de Santo Antônio de Lisboa. Vira os vitrais. Uma figura de santo lembrou-lhe São Francisco de Assis. Sentiu alguma coisa boa. Uma lembrança de pequeno, de jovem. Entrara numa loja, e vira alguns quadros, artesanias. Dias atrás, lendo Gabriel García Márquez, percebera como alguns escritores e algumas escritoras transcrevem a vida de uma maneira mais fiel do que a própria vida. Tivera lembranças muito sutis da infância. Não as lembranças padronizadas. Outras, mais inteiras. O tempo unificado voltara.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
A literatura traz a vida para mais perto
Quando leio um relato, uma novela, um conto, posso me ver nas personagens. Posso lembrar de mim mesmo ao ler o que os escritores e as escritoras escreveram. Então posso compreender o sentido do que Julio Cortázar escrevera em A volta ao dia em 80 mundos: que a literatura desfaz a falsa objetividade criada pela inteligência raciocinante, pela codificação cotidianizada e pelos meios de comunicação.
Nas personagens de ficção, posso ter vislumbres de mim mesmo. Posso ver recantos de mim mesmo que não me são aparentes até a hora em que me deparo com alguma descrição de algum aspecto de alguma das personagens do relato que estou lendo. Não importa muito (ou nada) que o enredo ou as próprias personagens pareçam (ou de fato estejam) muito distantes dos meus cenários habituais de vida.
O que importa é que o escritor ou a escritora, foram capazes de trazer para o papel, alguns fios muito tênues da interioridade ou do comportamento de alguém ficcional, que cria como que um reflexo de mim mesmo. Nesse reflexo me vejo, e vou desfazendo o meu estranhamento. Sei que este caminho de reencontro, ou estes caminhos de reencontro de mim mesmo pela literatura, começaram na minha vida, muito cedo.
Lembro dos contos que a minha mãe nos lia, quando éramos crianças. Cartas a gente menuda, de Constancio C. Vigil. La Señora del espino blanco, que era sobre a mãe de Jesus. A arca de Noé. Estes livros me chamavam a atenção por suas imagens. Creio que aos poucos fui encontrando um lugar nos livros, fui percebendo que ali era e sou mais eu.
Passaram-se já muitos anos desde esses tempos iniciais das minhas primeiras leituras. Mas ainda hoje, e pela vida afora, fui mantendo e continuo reforçando a minha sensação de que o meu verdadeiro lugar está lá, nas páginas de algum livro. De algum ou de muitos livros, de todos os livros de ficção que li ao longo dos meus dias.
Assinar:
Postagens (Atom)





