domingo, 11 de março de 2012

Num tom


Em algum momento, a gente olha para trás na sua vida e vê as flores que adornaram o seu caminho. Vem como que uma vontade de agradecer o que se aprendeu, o que se conheceu, dentro e fora, nessa caminhada. O que foi valioso ressalta. Outras coisas somem no esquecimento, ou quase, passam para um plano secundário. Agora sinto a necessidade de dizer que para mim o que fez sentido, o que está fazendo sentido, é amar e escrever. Aqui me encontro, isto faz sentido, mais do que qualquer outra coisa. Encontrei-me na literatura e na poesia, mas sem o amor, sem o amor de uma mulher, não estaria aqui, inteiro, esta noite, celebrando e partilhando. Tentei vários caminhos, mas a beleza prevaleceu, e nada mais belo do que o amor e a poesia, a literatura, o se encontrar, como me encontrei e me encontro, nos livros, nos romances, nos poemas. Ali me achei e me acho. Vim me achando desde os primeiros contos que a minha mãe nos lia em criança, e agora que vejo a luz do crepúsculo mais perto, não posso menos que agradecer ter enveredado por esses caminhos literários, pois ali me encontro muito mais do que do lado de cá das folhas literárias e poéticas, das folhas dos cadernos em que me deixo levar para além da materialidade, do utilitarismo, do intelectualismo, da chatice, de tudo que é pobre e menos que humano. Gostaria de contar algumas coisas, sem o tom ribombante que algumas vezes me seduziu. Mais com o tom humilde e limpo de um poema que não vem, que está ali, mas onde, como, como diria Cortázar. Está em algum lugar e o hás de escutar ou ler, pois está em ti, em mim, em todo lugar. É a beleza da vida, o mistério do estar vivo, respirando, pensando, amando, sentindo, tudo que é o viver. Quando te encontras, tudo está onde deve estar. Cri ser o que não sou, enganei-me, me confundi, perdi amigos que não me acompanharam nas minhas quedas e recomeços. Nada tenho a cobrar de ninguém, apenas agradeço. Vejo agora uma estrada pela qual vim caminhando desde pequeno. Nela há um sol brilhando, uma montanha, as plantas do campo com o seu perfume. Por ali vou, e me alegra ter encontrado o meu lugar, como mais cedo ou mais tarde, todo mundo o há de achar. Um lugar numa folha de papel, na folha de um livro, de livros e cadernos que formam uma mandala infinita.

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